A idolatria da produtividade
Quando o fazer ocupa o lugar do Ser
Existe uma idolatria pouco percebida na igreja contemporânea. Ela não se apresenta com imagens esculpidas, altares ou rituais pagãos. Ao contrário, veste-se de excelência, disciplina, compromisso e até de zelo pelo Reino de Deus.
É a idolatria da produtividade.
Vivemos em uma cultura que mede o valor das pessoas pelo quanto elas produzem. Perguntas como “O que você faz?”, “Quantos projetos você lidera?” ou “Qual é a sua performance?” tornaram-se critérios quase absolutos para definir sucesso. Infelizmente, essa lógica atravessou as portas da igreja.
Hoje, há cristãos exaustos tentando provar seu valor por meio de uma agenda cheia. Trabalham sem descanso, servem sem pausa, lideram ministérios, estudam teologia, produzem conteúdo, evangelizam, organizam eventos e, paradoxalmente, encontram cada vez menos tempo para estar em silêncio diante de Deus.
O problema não está no trabalho. O problema está quando o trabalho deixa de ser expressão de adoração e passa a ser fundamento da identidade.
A Escritura nunca condenou o trabalho
diligente. Desde Gênesis, o homem recebeu a vocação de cultivar e guardar a
criação (Gn 2.15). O apóstolo Paulo ordena: “Tudo quanto fizerdes, fazei-o
de todo o coração, como para o Senhor” (Cl 3.23). A preguiça é
constantemente denunciada em Provérbios.
Portanto, produtividade não é pecado. Mas fazer dela a fonte da nossa segurança espiritual certamente é.
João Calvino observou, nas primeiras
páginas das Institutas, que “o coração humano é uma fábrica perpétua
de ídolos.”
Essa talvez seja uma das descrições mais
precisas da condição humana.
Nós dificilmente deixamos de adorar. Apenas trocamos o objeto da adoração.
Se antes Israel transformava ouro em bezerros (Êx 32), hoje transformamos desempenho em identidade. O ídolo moderno não exige sacrifícios em um altar de pedra. Ele exige noites sem descanso. Famílias negligenciadas. Orações apressadas.Consciências culpadas por nunca fazerem o suficiente.
Essa é a grande ironia da idolatria
contemporânea: ela frequentemente utiliza coisas boas para ocupar o lugar do
Deus que concedeu essas mesmas coisas.
Foi exatamente isso que Jesus confrontou
na casa de Marta e Maria (Lc 10.38-42).
Não há qualquer indício de que Marta
estivesse fazendo algo moralmente errado. Pelo contrário. Ela servia ao próprio
Cristo.
Entretanto, Jesus revela algo
desconcertante:
“Marta, Marta, andas inquieta e te preocupas com muitas coisas; entretanto, pouco é necessário, ou mesmo uma só coisa.”
Observe cuidadosamente que Jesus não condena o serviço. Condena a ansiedade produzida pelo serviço. Não condena o trabalho, mas sim, condena um coração que perdeu a capacidade de permanecer.
Maria compreendeu algo que muitos de nós esquecemos. Antes de servir a Cristo, precisamos aprender a estar com Cristo. Essa ordem jamais pode ser invertida.
Dietrich Bonhoeffer escreveu em Discipulado que “somente quem crê é obediente, e somente quem é obediente crê.” Essa frase desmonta toda espiritualidade baseada em ativismo.
A verdadeira obediência nasce da comunhão. Nunca da ansiedade.
Infelizmente, a cultura contemporânea ensina exatamente o contrário. Somos condicionados a acreditar que nosso valor aumenta conforme nossa capacidade de produzir.
Esse pensamento, quando invade a espiritualidade, produz uma geração de cristãos que conhece métodos, mas desconhece silêncio. Conhece muitas estratégias mas não conhece contemplação. Conhece gestão ministerial mas desaprendeu a permanecer de joelhos.
A. W. Tozer advertiu que “a maior
tragédia não é que Deus esteja ausente de nossas atividades, mas que consigamos
realizá-las perfeitamente sem perceber Sua ausência.”
Essa afirmação deveria produzir temor em
qualquer líder cristão.
É possível administrar uma igreja sem intimidade. É possível pregar sermões biblicamente corretos sem profunda comunhão. É possível ensinar teologia enquanto o coração esfria.
A igreja de Éfeso prova isso.
Ela preservava a doutrina. Combatia falsos mestres. Perseverava. Trabalhava intensamente.Mesmo assim ouviu do próprio Cristo:
“Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.” (Ap 2.4)
Jonathan Edwards dizia que os verdadeiros afetos espirituais não consistem apenas em conhecer corretamente as doutrinas, mas em ter o coração inflamado pela beleza de Deus.
Talvez esse seja um dos maiores perigos da nossa geração: Acumulamos informação, produzimos conteúdos diversos, consumimos conferências, lemos muitos livros e artigos... Mas corremos o risco de transformar Deus em objeto de estudo, em vez de Senhor da nossa existência.
John Owen escreveu uma advertência que
considero profundamente atual:
“Esteja matando o pecado, ou ele estará matando você.”
Costumamos aplicar essa frase apenas aos pecados visíveis, mas ela também alcança os pecados sofisticados, como o orgulho, autossuficiência, vaidade ministerial e afins. Há uma soberba silenciosa em acreditar que o Reino depende da nossa eficiência.
Jesus jamais permitiu esse tipo de ilusão. Em João 15, Ele declara:
“Sem mim nada podeis fazer.”
Observe que Cristo não diz “vocês farão menos”. Ele diz: “Nada.”
Toda produtividade cristã desconectada da Videira é apenas movimento, não necessariamente fruto.
Charles Spurgeon costumava afirmar que “é
melhor ensinar um homem a orar do que dez homens a pregar.”
Vivemos exatamente a inversão dessa prioridade: Formamos comunicadores, especialistas, líderes mas poucos homens e mulheres profundamente quebrantados diante de Deus.
John Piper resume essa realidade ao
afirmar:,
“Deus é mais glorificado em nós
quando estamos mais satisfeitos nEle.”
Essa frase confronta diretamente a
lógica da produtividade.
Nossa maior contribuição para o Reino não nasce daquilo que realizamos, mas sim, da alegria de permanecermos em Cristo.
Porque somente quem encontrou descanso em
Deus consegue trabalhar sem transformar o trabalho em um deus.
Talvez por isso o quarto mandamento seja tão revolucionário. O sábado nunca foi apenas uma interrupção da rotina. Era uma declaração pública de confiança. Ao descansar, Israel dizia ao mundo:
“Nossa sobrevivência não depende exclusivamente do nosso esforço.”
Hoje fazemos exatamente o contrário: Descansar produz culpa, parar gera ansiedade, silenciar parece desperdício e por aí vai...
Mas o salmista nos lembra:
“Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam.” (Sl 127.1)
Não é um convite à preguiça, mas sim, um chamado à humildade. Porque no fim, o Evangelho não nos convida simplesmente a trabalhar para Deus. Convida-nos, antes de tudo, a caminhar com Deus.
Há uma diferença profunda entre viver
para Cristo e apenas viver ocupado por causa de Cristo.
A primeira produz fruto. A segunda, cedo ou tarde, produz esgotamento.
Talvez a pergunta mais importante não seja quantas coisas estamos fazendo para Deus. Talvez seja outra.
Se todas as nossas atividades
cessassem hoje, nossa comunhão com Cristo permaneceria a mesma?
Se a resposta for não, talvez nosso maior problema não seja excesso de trabalho. Talvez seja excesso de idolatria. E todo ídolo, por mais sofisticado que pareça, precisa ser derrubado.
Somente Cristo é digno de ocupar o centro da vida do cristão.
Em Cristo, Marco Cicco.





