Há uma dor silenciosa que, às vezes, atravessa os corredores da igreja
com mais força do que qualquer disciplina formal: a pena informal,
prolongada e social aplicada a quem pecou, confessou, foi tratado
publicamente, aceitou sanções e, ainda assim, continua sendo olhado como “o
erro” que cometeu — e não como alguém que Cristo alcançou.
Na linguagem reformada, nós costumamos falar com seriedade sobre a
santidade de Deus, a gravidade do pecado e a necessidade de arrependimento
real. E isso é certo. A igreja não deve banalizar a transgressão, nem chamar de
“fraqueza humana” aquilo que a Escritura chama de pecado. Mas existe um outro
erro, mais sutil: tratar o arrependido como se a cruz fosse suficiente para
perdoar, mas insuficiente para restaurar. Como se a disciplina eclesiástica
tivesse terminado no papel, mas continuasse viva no coração dos irmãos — não
como prudência e zelo, e sim como desconfiança eterna, rotulagem e desprezo.
Um dia desses eu assisti uma entrevista com o árbitro Edilson Pereira
de Carvalho, ligado ao escândalo da “Máfia do Apito”. Anos depois, ele
descreve a própria história com palavras que soam como lamento de alguém que
sabe que errou e que pagou caro: “Eu não me perdoo”, “Por R$ 68 mil acabei com a minha
carreira… com a minha vida… com a minha família” e, especialmente, a
frase que marca o peso social contínuo: “Pra mim é (uma pena perpétua)”
— relatando que “de 10 lugares… nove não vão me aceitar” e que sofria
rejeições até em empregos comuns (CNN Brasil, 04/02/2026). Há consequências que
ficam. Há cicatrizes reais. E há, também, um julgamento social que não termina
quando a justiça formal termina.
A igreja, claro, não é um tribunal civil e nem deve “apagar” consequências.
Perdão não é amnésia, e restauração não é ingenuidade. Há pecados que
quebram confiança e exigem tempo, limites, acompanhamento e, em muitos casos, impedimentos
permanentes para determinadas funções. Isso também é bíblico. O problema é
quando, após o arrependimento comprovado e os processos necessários, a
comunidade passa a agir como se o pecador arrependido fosse um “exilado
vitalício”: sempre lembrado, sempre citado, sempre reduzido ao passado. Aí a
disciplina vira algo pior que disciplina: vira identidade imposta. A
pessoa deixa de ser “irmão/irmã em Cristo” e se torna “o que fez aquilo”.
Mas o evangelho nos força a fazer uma pergunta incômoda: se Deus
justifica o ímpio pela fé em Cristo, com que direito eu mantenho o justificado
numa espécie de condenação social sem fim? Na teologia reformada, a
doutrina da justificação não é um detalhe — é o centro. Deus não perdoa
parcialmente. Ele não arquiva um processo com ressalvas. Em Cristo, a sentença
é clara: não há condenação. Quando a igreja mantém uma “pena perpétua”
sobre o arrependido, ela corre o risco de comunicar, mesmo sem dizer, que o
sangue de Cristo cobre o pecado… mas não cobre a reputação. Como se a cruz
resolvesse o céu, mas não autorizasse recomeço na terra.
Também há outro perigo: a igreja pode passar a amar mais a sensação
de estar do lado certo do que a obra de restauração. Julgar dá uma falsa
segurança: “eu não fiz o que ele fez, então estou bem”. Só que isso é
moralismo, não é graça. A postura reformada saudável não é “passar pano”, mas
também não é “passar sentença eterna”. É verdade com misericórdia,
santidade com mansidão, zelo com humildade.
Talvez a pergunta mais prática seja: o que Deus pede de nós quando
alguém cai e se levanta de verdade? Ele pede que a igreja:
- leve o pecado a sério (sem relativizar);
- leve o arrependimento a
sério
(sem cinismo);
- leve a restauração a sério (sem crueldade);
- e viva de tal modo que o
pecador arrependido não precise fugir da comunidade para respirar.
Isso não significa colocar alguém “de volta ao púlpito” automaticamente,
nem devolver cargos, nem ignorar vítimas e danos. Significa algo mais básico e
mais difícil: voltar a tratar como irmão. Significa permitir que a
pessoa seja conhecida não só pelo que fez, mas pelo que Deus está fazendo nela
agora. Significa parar de “recontar” a história como arma. Significa não usar o
passado do arrependido como alerta constante, como se a existência dele
servisse apenas de exemplo negativo — e não como testemunho vivo de que a graça
é mais forte do que a queda.
A dura realidade é que algumas pessoas vão carregar consequências até o
fim da vida — às vezes legais, às vezes profissionais, às vezes familiares. O
que não pode acontecer é a igreja, que deveria ser o lugar onde a graça é mais
concreta, se tornar mais impiedosa do que o mundo. Se até um homem como
Edilson consegue nomear o peso de uma “pena perpétua” social, a igreja deveria
tremer diante da possibilidade de fazer algo parecido com alguém que já se
humilhou, confessou, foi tratado e está buscando caminhar em novidade de vida.
No fim, a pergunta não é se o pecado foi grave. Muitas vezes foi. A
pergunta é: o que é maior na nossa prática comunitária — o pecado do homem
ou a graça de Cristo? Porque, quando a igreja perpetua o rótulo, ela pode
estar dizendo, sem palavras, que o último capítulo pertence ao erro.
Mas o evangelho insiste: para o arrependido, o último capítulo
pertence a Cristo.
Pense Nisso.
Marco Cicco
