Nunca houve tanto acesso ao conhecimento bíblico. Em poucos segundos encontramos centenas de sermões, comentários, cursos de teologia e estudos das Escrituras. Ainda assim, permanece uma pergunta que atravessa os séculos e continua desconfortavelmente atual: é possível estar dentro da igreja e permanecer distante de Cristo?
Infelizmente, a resposta é sim. Essa foi, aliás, uma das principais advertências feitas pelo próprio Senhor Jesus durante Seu ministério terreno.
Quando lemos os Evangelhos, percebemos que Cristo demonstrou compaixão pelos pecadores arrependidos, mas reservou Suas palavras mais severas aos religiosos que confiavam em sua própria justiça. Homens que conheciam a Lei, defendiam a tradição e exerciam rigorosamente suas práticas religiosas, mas cujo coração permanecia alheio à graça de Deus.
O problema nunca foi a religião em si. A religião, entendida como a expressão pública da fé, possui seu devido lugar. Deus instituiu Sua Igreja, estabeleceu a pregação da Palavra, os sacramentos e a comunhão dos santos. O erro está em transformar esses meios de graça em um fim em si mesmos.
Existe uma diferença profunda entre usar os meios que Deus concedeu para conhecer a Cristo e substituir Cristo pelos próprios meios. É essa diferença que separa uma vida religiosa de uma vida regenerada.
O coração humano é naturalmente religioso
As Escrituras ensinam que o homem foi criado para adorar. Por isso, mesmo afastado de Deus, continua sendo um ser religioso. Se não adorar o Criador, encontrará outro objeto para sua devoção: poder, dinheiro, reconhecimento, ideologias ou até mesmo sua própria moralidade.
O pecado não eliminou essa inclinação religiosa; apenas a corrompeu. É justamente por isso que a religião, isoladamente, não salva ninguém. Podemos decorar versículos e jamais sermos transformados por eles.
Podemos conhecer doutrinas corretas e continuar alimentando orgulho, inveja, dureza de coração e autossuficiência. Podemos frequentar a igreja durante toda a vida e nunca experimentar aquilo que Jesus chamou de novo nascimento.
A salvação não acontece porque alguém melhora seu comportamento.Ela começa quando Deus concede um novo coração. Como declarou o apóstolo Paulo:
"Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus." (Efésios 2:8)
Antes de qualquer resposta humana existe a iniciativa da graça divina. Ou seja, É Deus quem desperta o pecador. É Deus quem ilumina os olhos espirituais. É Deus quem conduz o homem até Cristo. Essa verdade humilha nosso orgulho e exalta a soberania do Senhor.
O maior perigo da religiosidade
Talvez o aspecto mais perigoso da religiosidade seja sua capacidade de produzir uma falsa sensação de segurança. Quem vive uma vida visivelmente imoral costuma reconhecer sua necessidade de arrependimento. Já o religioso corre o risco de acreditar que suas obras o aproximam de Deus.
Foi exatamente isso que Jesus confrontou na parábola do fariseu e do publicano. Enquanto um apresentava seu currículo espiritual, o outro sequer conseguia levantar os olhos aos céus.
O primeiro confiava em si. O segundo dependia exclusivamente da misericórdia divina. Jesus afirmou que apenas um deles voltou justificado. E isso deveria nos levar a uma pergunta sincera.
Em quem repousa minha confiança? Nas minhas práticas espirituais? Na minha frequência à igreja? Na minha reputação entre os irmãos? Ou exclusivamente na obra perfeita de Cristo?
Enquanto existir qualquer mérito pessoal ocupando esse lugar, ainda não compreendemos plenamente o Evangelho.
Relacionamento com Cristo não é sentimentalismo
Nos dias atuais tornou-se comum definir relacionamento com Deus apenas como uma experiência emocional. Mas as Escrituras apresentam algo muito mais profundo.
Relacionar-se com Cristo é viver unido a Ele pela fé. É reconhecer Sua autoridade. É submeter nossa vontade à Sua Palavra. É amá-Lo porque Ele nos amou primeiro. Essa união transforma toda a existência. Não significa ausência de pecado.
Significa uma nova disposição diante do pecado. O cristão continua lutando contra sua velha natureza, mas já não faz as pazes com ela.
Quando cai, arrepende-se. Quando erra, corre para a cruz. Quando vence, reconhece que toda glória pertence ao Senhor.
Essa é uma diferença fundamental: A religião tenta esconder o pecado. O Evangelho leva o pecador ao único lugar onde ele pode ser verdadeiramente perdoado.
Os meios da graça apontam para Cristo
Ler a Bíblia é indispensável. Orar é indispensável. Participar da comunhão da Igreja é indispensável. Mas todas essas práticas possuem um único propósito: conduzir-nos continuamente à pessoa de Jesus Cristo.
Quando abrimos as Escrituras apenas para cumprir uma obrigação, perdemos de vista seu Autor. Quando oramos apenas para apresentar pedidos, esquecemos que a oração também é comunhão. Quando frequentamos a igreja apenas por tradição, deixamos de contemplar a beleza do corpo de Cristo.
Os reformadores insistiam que a Palavra de Deus não foi dada apenas para informar a mente, mas para conformar todo o homem à imagem de Cristo.
Conhecimento sem transformação produz orgulho. Conhecimento acompanhado da graça produz adoração.
A pergunta que permanece
Ao final da vida, dificilmente a questão será quantas vezes estivemos presentes em um templo, quantos livros lemos ou quantos ministérios exercemos. A pergunta decisiva será outra. Conhecemos verdadeiramente o Bom Pastor? Mais do que isso. Fomos conhecidos por Ele?
As palavras de Jesus em Mateus 7 permanecem como um alerta para cada geração: "Nunca vos conheci."
Observe que Cristo não diz: "Vocês nunca ouviram falar de mim." O problema era outro. Havia atividade religiosa, mas faltava comunhão. Havia serviço, mas faltava rendição. Havia conhecimento intelectual. Faltava um coração regenerado.
Por fim
A religião pode reformar costumes. Pode produzir disciplina. Pode organizar uma sociedade. Mas somente Cristo pode ressuscitar um coração espiritualmente morto. Essa é a beleza do Evangelho.
Não somos aceitos porque conseguimos chegar até Deus. Somos recebidos porque Deus, em Sua infinita misericórdia, veio ao nosso encontro na pessoa de Seu Filho.
É por isso que nossa esperança não repousa em nossa capacidade de sermos bons religiosos. Nossa esperança repousa inteiramente em Cristo. Nele encontramos perdão para o passado, graça para o presente e esperança segura para a eternidade.
Que Deus nos livre de uma fé que apenas ocupa os bancos da igreja, mas nunca alcança o coração. E que, pela ação do Espírito Santo, sejamos conduzidos diariamente não apenas a saber mais sobre Cristo, mas a conhecê-Lo, amá-Lo e segui-Lo até o fim.
"Examinai-vos a vós mesmos se realmente estais na fé." (2 Coríntios 13:5)
Marco Cicco
