Há uma pergunta que acompanha a humanidade desde os tempos mais antigos: por que os ímpios prosperam enquanto os justos sofrem?
Se formos honestos, todos nós já olhamos para alguma situação e sentimos o peso dessa aparente injustiça. Talvez no trabalho, quando alguém que age de forma desonesta é promovido. Talvez nos relacionamentos, quando pessoas que ferem os outros parecem seguir suas vidas sem qualquer consequência. Talvez na própria caminhada cristã, quando procuramos viver de maneira íntegra e, ainda assim, enfrentamos perdas, lutas e decepções.
Mas esse não é um dilema novo.
Asafe, autor do Salmo 73, confessou exatamente isso:
"Quanto a mim, porém, quase me resvalaram os pés; pouco faltou para que se desviassem os meus passos. Pois eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos." (Salmo 73:2-3)
Observe que o problema de Asafe não era teológico. Ele sabia quem Deus era. O problema estava em sua perspectiva. Seus olhos estavam fixados nas circunstâncias, não na eternidade.
Ele via os perversos prosperando, vivendo sem temor a Deus, acumulando riquezas e influência. Parecia injusto. Parecia que Deus estava em silêncio.
Mas tudo mudou quando ele entrou na presença do Senhor:
"Até que entrei no santuário de Deus e atinei com o fim deles." (Salmo 73:17)
A resposta de Deus não foi explicar cada injustiça da vida. Deus simplesmente lembrou Asafe de que existe um fim.
A cosmovisão cristã nunca prometeu justiça plena neste mundo caído.
Pelo contrário. Jesus disse:
"No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo." (João 16:33)
Note que Cristo não disse "talvez". Ele disse "passais". A aflição não é um acidente da vida cristã. É parte dela.
O próprio Senhor foi traído, acusado injustamente, abandonado pelos amigos, espancado e crucificado, embora fosse o único homem verdadeiramente inocente que já existiu.
Se o Filho de Deus não foi poupado da injustiça, por que imaginaríamos que nós seríamos?
A fé reformada nos ensina algo profundamente consolador: Deus não apenas permite as circunstâncias; Ele governa soberanamente sobre elas.
Nada escapa de Suas mãos. Nada. Nem a injustiça que sofremos. Nem a mentira que contaram sobre nós. Nem a promoção que perdemos. Nem a traição que nos feriu.
João Calvino escreveu:
"Nada acontece senão pelo conselho e determinação de Deus."
Isso não significa que Deus aprova o pecado dos homens. Significa que nem mesmo o pecado dos homens consegue frustrar os propósitos de Deus.
José entendeu isso quando disse aos seus irmãos:
"Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem." (Gênesis 50:20)
Perceba a profundidade desse texto.
José não nega o mal que sofreu. Ele não romantiza a dor. Ele não chama o mal de bem. Mas ele reconhece que existe uma mão maior conduzindo a história.
Essa é uma das verdades mais belas do evangelho.
Os homens escrevem suas intenções. Deus escreve o capítulo final.
Por isso, o cristão não precisa viver consumido pelo desejo de vingança ou pela comparação com os ímpios.
O Salmo 37 nos adverte:
"Não te indignes por causa dos malfeitores, nem tenhas inveja dos que praticam a iniquidade. Pois eles dentro em breve definharão como a relva." (Salmo 37:1-2)
A prosperidade dos ímpios é temporária. O Reino de Deus é eterno.
Uma geração inteira pode aplaudir um homem. Isso não significa que Deus o aprova. Uma geração inteira pode rejeitar um homem. Isso não significa que Deus o abandonou. O veredito final pertence ao Senhor.
Charles Spurgeon dizia:
"A fé vê mais longe do que os olhos."
E é exatamente isso que o cristão precisa lembrar. Nós não vivemos apenas pelo que vemos. Vivemos pelo que Deus prometeu.
O mundo mede sucesso por dinheiro, posição e influência. O Reino de Deus mede sucesso por fidelidade.
Talvez você nunca receba a reparação que espera nesta vida. Talvez algumas injustiças nunca sejam esclarecidas diante dos homens. Talvez algumas lágrimas permaneçam sem resposta até o último dia.
Mas a Escritura nos garante que existe um trono ocupado.
Existe um Juiz perfeito. Existe um dia marcado. E quando esse dia chegar, nenhuma injustiça ficará sem resposta. Nenhuma.
Até lá, seguimos confiando. Não porque entendemos tudo. Mas porque conhecemos Aquele que governa todas as coisas.
E se Deus não poupou Seu próprio Filho, mas O entregou por nós, então podemos descansar na certeza de que Sua providência continua sendo boa, mesmo quando nossa compreensão é pequena.
A cruz nos lembra que, muitas vezes, aquilo que parece derrota aos olhos humanos está sendo usado por Deus para realizar Seus maiores propósitos.
Foi assim no Calvário.
E continua sendo assim hoje.
Por isso, não permita que a prosperidade momentânea dos ímpios roube sua paz.
Olhe para Cristo. Olhe para a eternidade. Olhe para as promessas.
A história ainda não terminou.
E Deus jamais perde o controle da narrativa.
EM Cristo, Marco Cicco
