Filhos de Deus

 


“O Verbo estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que creem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.” (João 1.10-13)

 

Certa feita, um pastor brasileiro contou que, em um momento de disciplina, percebeu seu filho profundamente angustiado — como se aquele erro pudesse romper o laço de amor entre eles. Ele parou, olhou nos olhos do menino e proferiu palavras que redefiniriam a compreensão daquela criança sobre a paternidade:

 

“Filho, preste atenção: nada do que você fizer de bom vai fazer com que eu te ame mais, e nada do que você fizer de ruim vai fazer com que eu te ame menos. Eu te amo porque você é meu filho, não pela sua performance.”

 

Ao notar o alívio imediato no rosto do filho, o pai percebeu que a graça poderia ser mal interpretada como uma “licença” para a rebeldia. Então, ele trouxe a distinção crucial:

 

“Agora, entenda uma coisa: ser amado é uma questão de identidade, mas agradar é uma questão de conduta. Se você quiser me agradar, aí o seu comportamento importa. Mas, mesmo quando você não me agrada, você não deixa de ser amado.”

 

Essa segurança experimentada por aquele filho ilustra com perfeição a lógica da nossa própria filiação divina. Assim como naquela cena, fomos feitos filhos por uma decisão de amor que partiu do alto, e, como creio, nada pode desfazer esse decreto soberano.

 

Podemos nos consolar em John Owen:

 

“A maior honra que o evangelho nos concede é sermos feitos filhos de Deus.”

 

Mas também nos desafiar em J.I. Packer:

 

“Se você quer julgar quão bem uma pessoa entende o cristianismo, descubra o quanto ela valoriza o pensamento de ser filho de Deus.”


Ser filho consiste em uma transformação completa de identidade, acompanhada de privilégios e missões. Para compreendermos a profundidade desse chamado, exploraremos a seguir três dimensões cruciais: o Porquê, o Como e o Para Quê fomos feitos filhos.

 

1.  Porquê:

 

É a Vontade do Pai

 

Antes de qualquer explanação, precisamos reafirmar nossa identidade: em Cristo, nós somos, de fato, filhos de Deus. O apóstolo João esclarece que, a todos quantos O receberam, Deus deu o poder de serem feitos Seus filhos (João 1:12). No grego, a palavra usada é exousia, que traduz a ideia de um “privilégio” ou “direito legal”.

Trata-se de uma outorga espiritual; um presente que nos qualifica legalmente dentro da família de Deus.

 

Dito isso, é vital compreendermos a origem dessa filiação. Em Efésios 1:5, lemos:

 

“E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade.”

 

O termo grego para “beneplácito” é eudokía, que carrega a ideia de algo feito por puro prazer e propósito. Em outras palavras, Deus nos adotou porque isso Lhe agradou. Independentemente das nuances interpretativas, uma verdade absoluta à qual todos devemos nos submeter: nossa filiação não é resultado de mérito pessoal, mas de uma decisão soberana e amorosa de Deus.

 

O apóstolo João segue um raciocínio fascinante sobre como esse amor nos alcançou. Primeiro, ele mostra a manifestação prática: o envio do Filho Unigênito para que vivamos por meio d’Ele (1 João 4:9). Em seguida, ele define a essência desse amor:

 

“Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados.” (1 João 4:10)

 

O elo que nos liga ao Pai é — e sempre será — o amor anterior d’Ele por nós. Como o próprio Jesus lembrou aos Seus discípulos, não fomos nós que O escolhemos, mas Ele quem nos escolheu (João 15:16). Uma vez que esse amor é doado de maneira voluntária e soberana, a Igreja pode ancorar-se na certeza de que Ele nos ama por quem Ele é, e não baseado em nossa performance.


2.  Como:

 

Através do Filho

 

Se a vontade de Deus é a origem, a obra de Cristo é o meio legal pelo qual a filiação se torna possível. Não nos tornamos filhos por um simples decreto abstrato; houve um custo altíssimo para que fôssemos integrados à família de Deus.

 

O apóstolo João utiliza o termo exousia em João 1:12 para definir esse “direito legal”. Isso é crucial porque, por natureza, éramos “filhos da ira” (Efésios 2:3). Para que um Deus Santo pudesse adotar pecadores, a barreira da culpa precisava ser removida. É aqui que entra a obra de Cristo:

 

·         A Substituição Penal: Jesus, o único Filho Unigênito por natureza, assumiu a nossa condenação para que pudéssemos receber Sua aceitação.

·         A Redenção Legal: Em Gálatas 4:4-5, Paulo explica que Deus enviou Seu Filho para “remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos”. Cristo cumpriu todas as exigências da Lei que nós falhamos em cumprir.

·         A União com o Filho: Fomos feitos filhos porque estamos “em Cristo”. Quando o Pai olha para o crente, Ele a justiça do Seu próprio Filho. Nossa filiação é um benefício direto da união com Aquele que nunca deixou de ser Filho.

 

Ser filho de Deus é um presente imerecido. No entanto, imerecido não significa gratuito: custou a vida do Primogênito para que nós, os adotados, tivéssemos o direito legal de entrar na herança eterna.

 

3.  Para Quê:

 

União no Espírito

 

Fomos salvos e filiados a Deus com um objetivo: sermos um com Ele e manifestarmos Sua vida. Por meio da obra vital do Espírito Santo, não somos apenas declarados filhos em um tribunal celestial; somos transformados em filhos em nossa experiência interior e diária.

 

O apóstolo Paulo detalha essa operação em Romanos 8. Primeiro, ele apresenta o Espírito como o agente da nossa adoção:


“Pois vocês não receberam um espírito que os escravize para novamente temer, mas receberam o Espírito que os adota como filhos, por meio do qual clamamos: ‘Aba, Pai’.” (Romanos 8:15)

 

O Espírito Santo remove o “espírito de escravidão” — aquele medo servil de um juiz distante — e nos concede a intimidade de um filho. É Ele quem nos revela o Pai, permitindo que o nosso coração clame “Aba”, um termo que denota profunda proximidade e confiança. Além da revelação, o Espírito atua como a autenticação da nossa nova identidade:

 

“O próprio Espírito testemunha ao nosso espírito que somos filhos de Deus.”

(Romanos 8:16)

 

uma confirmação interna, um selo sobrenatural que dissipa a dúvida. Ser filho, portanto, não é um esforço de autoconvencimento, mas uma realidade atestada pelo próprio Deus habitando em nós.

 

Reflita…

A filiação não é um privilégio para ser desfrutado em isolamento; ela possui uma finalidade externa e missionária. Fomos feitos filhos para que o caráter do Pai seja visível através de nós. O modelo perfeito é Jesus. João 1:14 nos diz que Ele, o Verbo feito carne, manifestou a glória do Pai. Como coerdeiros com Cristo, nosso chamado é sermos conformados à Sua imagem (2 Coríntios 3:18) para que a “multiforme sabedoria” de Deus seja conhecida por meio da Igreja (Efésios 3:10).

 

Essa manifestação ocorre em duas frentes:

 

1.    O Caráter (Ser): À medida que somos transformados, refletimos quem o Pai é.

        2.    A Missão (Fazer): Somos enviados para dar frutos que permaneçam (João 15:16) e para fazer discípulos de todas as nações (Mateus 28:19).

 

Nossa vida deve ser o “bom perfume de Cristo” (2 Coríntios 2:14-16), uma evidência viva de que o Pai é bom e que Sua família está de portas abertas. Ser filho de Deus é viver na intersecção dessas três realidades: descansar em um Amor Imerecido, caminhar sob Guia do Espírito e cumprir uma Missão Gloriosa.

 

Que essa identidade mude não apenas o seu domingo, mas a forma como você enxerga cada momento comum da sua vida.



Texto de Dhaniel Harald