A Relação Do Ser de Deus e Seus Atributos
Ao
longo da história da teologia, encontraremos uma característica comum em alguns
dogmáticos, que consiste em dar atenção ao Ser de Deus antes de analisar e
estudar os Seus atributos. Obras como as de Kuyper deixam essa característica
em extrema evidência. Porém, de outro lado, vemos que alguns outros autores que
conectam e condicionam o Ser de Deus com Seus atributos. O ponto comum de ambas
posições é que os atributos não são separados de Deus, portanto, não há uma
discordância básica nas argumentações.
Após
esta consideração inicial, vamos verificar:
O Ser De Deus
Conforme já tratamos em artigos anteriores, já sabemos que o Ser Deus não pode ser limitado em definições lógicas ou cientificar. Se tivermos a pretensão de definir Deus com alguma espécie de lógica, deveríamos ter algum objeto de comparação superior a Deus. E isso em si mesmo, obviamente, é absurdo, porque não há nada maior que Deus.
Quando
lemos a Palavra de Deus, vamos constatar que a Bíblia nunca vai operar com um
conceito abstrato sobre Quem Deus é, mas sim com um Deus que nos mostra,
através de Seus atributos perfeitos, como Ele se relaciona com a criação.
Muitos
teólogos também argumentam que a Bíblia fala da “natureza” de Deus. Por
exemplo, lendo 2 Pedro 1:4 “Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e
preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza
divina, havendo escapado da corrupção, que pela concupiscência há no mundo. ”
Mas essa natureza não se refere a Deus em essência pelo fato do homem não ser
um agente ativo da essência divina em termos de origem.
Em
termos de definição, a passagem de João 4:24 “Deus é Espírito, e importa que os
que o adoram o adorem em espírito e em verdade. “, é a que melhor nos instrui
acerca do Ser de Deus, uma vez que foi dita pelo próprio Senhor Jesus Cristo.
Nesta
relação do Ser de Deus com seus atributos, podemos concluir que a Bíblia não
exalta um atributo de Deus acima do outro. Há uma harmonia entre os atributos
que apontam a perfeição do Ser de Deus que, mediante os atributos, nos dão um
vislumbre sobre Deus.
Já
tratamos em outros artigos que tentar definir Deus meramente evidenciando os
atributos, é correr o risco de limitar Deus em nossa ótica. Fato é que em
determinados momentos da Bíblia, um atributo acaba por receber ênfase diante do
contexto, o que não significa que os demais atributos sejam menos importantes.
Podemos
notar, então, que o Ser de Deus, tem características profundas, plenas,
variadas e em nível de excelência que excede completamente a nossa capacidade
de compreensão. Biblicamente não vamos encontrar nenhum tipo de incoerência ou
contradição sobre os tais atributos.
Historicamente,
observando alguns dos Pais da Igreja, defenderam a ideia que a natureza de Deus
é absoluta, e até por questões de limitações face a transcendência de Deus e
por falta de conhecimento adequado, de que não era possível definir o Ser de
Deus e Sua essência de divina.
Inclusive
na Idade média houve uma tendência expressiva de afirmar que o homem não tem
condição de ter algum conhecimento da essência de Deus ou de reduzir ao máximo
qualquer tipo de conhecimento ou análise sobre.
Porém, podemos encontrar obras de Tomás de Aquino, onde o mesmo fala
sobre a auto-existência de Deus bem como Scotus falava do Ser Infinito de Deus.
Os
reformadores, por sua vez, relatavam como incompreensível a essência de Deus,
mas não negavam a totalidade do conhecimento que era possível ter sobre o tema.
Inclusive, era tema comum para estes a simplicidade e espiritualidade de Deus.
Lemos por exemplo na confissão Belga:
“ Todos nós cremos com o coração e confessamos com a boca [1] que há um só Deus [2], um único e simples ser espiritual3. Ele é eterno [4], incompreensível [5] invisível [6], imutável [7], infinito [8], todo-poderoso [9]; totalmente sábio [10], justo [11] e bom [12], e uma fonte muito abundante de todo bem. ” Artigo 1 – O ÚNICO DEUS
A Possibilidade de Conhecer o Ser
de Deus
Do que tratamos até agora, está
bem claro que este tema era comum aos cristãos, teólogos e estudiosos ao longo
dos séculos. Porém, como já citei neste artigo, o fato de muitos definirem Deus
como incompreensível diante de Sua Grandeza, havia forte argumentação de que o
homem não poderia conceber nenhum tipo de ideia sobre Deus, ainda que de forma
parcial. Este, ao menos, era o aparente consenso da Idade Média.
Porém, precisamos discernir com
clareza que “saber” algo e “compreender” algo, não significa a mesma coisa. E
sobre estes dois pontos é que pairavam as discussões teológicas do Ser de Deus
e Seus atributos.
Lembremos que há uma grande
diferença entre um conhecimento absoluto e um conhecimento parcial. Claramente
não podemos ter um domínio de conhecimento de Deus ou até mesmo um conhecimento
exaustivo, mas parcialmente podemos conhecer o Ser de Deus. Sabemos também que
isso só é possível conforme Deus se revela a nós, portanto, não é razoável
afirmar que não podemos conhecer Deus, ainda que parcialmente.
O Ser de Deus Revelado em Seus
Atributos
De forma direta, entendemos que Deus e seus atributos são um. Um engano comum que já ouvi em certos ensinos é que os atributos são partes que compõe Deus, e este argumento está errado, pois obviamente, Deus não é uma espécie de quebra-cabeça a ser montado. Deus, por ser perfeito, não tem necessidade de que algo seja acrescentado em Sua natureza, portanto, também não devemos considerar os atributos de Deus como acréscimos ou adicionais ao ser de Deus.
Na história da teologia concluímos que
os atributos de Deus e Deus são um, pois é esta a forma a qual Deus se revela a
nós. Inclusive, os escolásticos pontuavam veementemente que Deus é tudo quanto
Ele tem, o que faz todo sentido: Deus tem justiça, amor, paz, vida e a Bíblia
afirma isso também.
A nós, cumpre também evitar uma
compreensão que separa a essência divina dos atributos, bem como o conceito
equivocado de uma espécie de relação mútua. Afirmo isso pois os atributos de
Deus são inerentes ao Ser de Deus, ou seja, são reais e revelam Deus a nós.
Shedd, citado por Louis Berkhof em sua maravilhosa obra dogmática,
afirma o seguinte: “Toda a essência está em cada atributo, e cada atributo na
essência”. É a síntese mais perfeita que podemos adotar para absorver esse
contexto todo, pois todos os atributos não podem ser alterados sem alterar a
essência do Ser de Deus. Portanto, o Deus imutável, perfeito em seus atributos
nos permite que através dos seus atributos, possamos conhecer alguns aspectos
de Si mesmo.
Rev.
Marco Cicco
